cego

o girassol é amarelo
tudo mais é mentira

cartão-postal

lá no fundo sei de um
barco à vela
de mim até onde vai
arco-íris
sobre a cabeça três
véus caem
um branco e outro preto
outro ainda
fim de tarde lilás

como estrela caindo

pisei num caco de estrela
réstia de sol vazada do telhado
dormi e acordei complexo
nada será simples durante o dia
nem que adivinhes a medida do que quero
na minha ejaculação precisa


[jornal "dezfaces", n. 6; abr.2007. bh.]

meu ofício de canteiro

sem pena do mundo, pedro
eu amo

você

e nada sobra desse amor doido
de pedra rolada em cantaria

artefatos, sentinelas, lamparinas
tão doído amor eu devoto
a você

guardo a pepita de ouro negro
guardo no peito o escapulário tecido
na véspera do primeiro verso

guardo ainda bruta aquela pedra

tudo
eu devoto a você, girassóis e terços

como antes era, será também depois
um portal rococó todo feito da mesma pedra
que dura sempre desde aquele dia

e mesmo sem vê-lo, suspiro

cantando muito

o passarinho passou por aqui
o passarinho passou por acaso
o passarinho passou de repente
o passarinho pequeno-grande
o passarinho cantando sempre
o passarinho menino-homem
o passarinho pousou na grade
parou um pouco, o passarinho
não parou de cantar, seu bico
de lata vermelha, lacre passa
alegre

um minuto do passarinho, um
minuto cantando muito e

seguiu seu voo, ave

voltou
voltou breve, mas
coleirinho, o pássaro

o azul que se abre: amarelo é

tem um azul que eu guardo comigo
um azul que me comove e todo desejo rasga
resistente a tudo e à verdade
mais firme que o aço
não enferruja quando chove
esse azul inox que vejo
soletrado e que amanhece: a-zul
ávido turquesa o dia inteiro
íntima certeza, ele, marinho
muito veloz, ele é alguma
surpresa: meu coração azul-metálico
batendo dentro do peito insiste
rei de cetro e viagens
derramado em verde
faz sangrar a lua quando
mutila a minha glande
o azul que se abre
sensivelmente:
amarelo é
o que vertendo invade

Por um fio

há um fio
invisível entre
a razão e a insanidade, a lucidez e
a desrazão, a moderação e a vaidade

oscila

um fio
como os do cabelo, mas invisível e oblíquo, apenas
determinado pelos teóricos das loucuras; vê?

romper o fio é amar o vermelho e abrir
torneiras e rasgar travesseiros,
vagar sem medo no reino do sensível pra ser ex-ato e mais
.................................................................................[imaginação
fazer poemas o dia
a noite inteiros