mitonomias, ou estudando mitos

a marcha para jesus
não marcha para jesus

o mbl
não quer libertar o país

o escola sem partido
não é a-
partidário

a gente se vê por aqui / a gente se liga em você
não são frases tão fora de suspeita quanto parecem ser

o guarnecimento da população com projéteis
não é seguramente projeto de paz

o binarismo de gênero
não se designa ideologia de gênero

o ponte para o futuro
não tem nada a ver com uma ponte para o futuro

o vem pra rua
não é íntimo do asfalto

coreografias anticorrupção
não se reproduzem contra a corrupção

investidores do brazil
não visam tirar o brasil do mapa
não visam tirar o brasil da fome

um golpe
não vem somente a galope e coturnos

patos amarelos de matéria plástica ou de cordeira borracha
não são só flexíveis brinquedos ingênuos

a lava jato
não atinge equânime os elementos

acordos ortográficos
não são jamais falados

mitos são apenas mitos

quando se der conta

na última vez que nos vimos, voltei
meu abraço sem medir desejo
ou corpo líquido de mágoa
contra o seu

meu peito se abrira como uma janela 
de manhã se abrindo
pra passar o dia

podia dizer nada, ou algo 
que permanecesse chama

(porém, não)

podia dizer algo que só permanecesse
como um azul que se abre nas retinas
marcando-as, e deixa

uma despedida sem ser, um mapa
de não conter uma alegria

ou um nome que jamais tenha igual, 
pensei: talvez pedro
porque pedro é o nome que mais gosto, depois de josé
jesus e maria



à flor do tempo

plantar um girassol de manhã cedo
é sempre tarde
é sempre a tempo
nem sempre medo
tão amarelo será
ele



cego

o girassol é amarelo
tudo mais é mentira

sobre todas as coisas

todas as coisas
ferem
e
jamais dormem
tranquilas

sobre o sofá

repousam
com seu ar
de ousadia e
violência

abertas

vertendo
seu pus
poesia, silêncios
suas gotas de sal

as feridas

ardem e se
consomem



vi-da

a Victor Heringer

separei em sílabas
a vida

não foi possível qualquer hiato
que sugerisse com dignidade
seu significado frouxo
sua intermitência

a vida não é nada como algo entre
a precedência e a morte
– o conteúdo animado e contingente
que aniquila por um instante essas duas instâncias
insensíveis e brutas – 

a vida está
no que não é ainda
e em tudo depois que expira
inclusive ela própria