quando se der conta

na última vez que nos vimos, voltei
meu abraço sem medir desejo
ou corpo líquido de mágoa
contra o seu

meu peito se abrira como uma janela 
de manhã se abrindo
pra passar o dia

podia dizer nada, ou algo 
que permanecesse chama

(porém, não)

podia dizer algo que só permanecesse
como um azul que se abre nas retinas
marcando-as, e deixa

uma despedida sem ser, um mapa
de não conter uma alegria

ou um nome que jamais tenha igual, 
pensei: talvez pedro
porque pedro é o nome que mais gosto, depois de josé
jesus e maria



à flor do tempo

plantar um girassol de manhã cedo
é sempre tarde
é sempre a tempo
nem sempre medo
tão amarelo será
ele



cego

o girassol é amarelo
tudo mais é mentira

sobre todas as coisas

todas as coisas
ferem
e
jamais dormem
tranquilas

sobre o sofá

repousam
com seu ar
de ousadia e
violência

abertas

vertendo
seu pus
poesia, silêncios
suas gotas de sal

as feridas

ardem e se
consomem



vi-da

a Victor Heringer

separei em sílabas
a vida

não foi possível qualquer hiato
que sugerisse com dignidade
seu significado frouxo
sua intermitência

a vida não é nada como algo entre
a precedência e a morte
– o conteúdo animado e contingente
que aniquila por um instante essas duas instâncias
insensíveis e brutas – 

a vida está
no que não é ainda
e em tudo depois que expira
inclusive ela própria


um

a galinha cisca 
a brasa acaba 
a estrela d’alva 

a grama cresce 
a mãe pare 
a areia branca
  
o instante chega 
o verão chove 
a lua nova  

a lama suja 
o poeta escreve 
o beija flor  

o corpo quer 
o silêncio fica 
e eu te amo


[Colagem s/ papel (A4). "um". Deivid Junio, 2017.]

*Clique sobre a imagem para ampliá-la.