Lucas

Quando abri o livro não foi de repente
e era esta a página que abria o livro [e a primeira frase]:
“No meu primeiro livro, ó Teófilo, já tratei de tudo...”

Um clarão feriu meus olhos,
cegando-me à hora exata em que li “tudo”.

O que se seguia a “tudo” eu jamais soube.
Quando recuperei a vista, nada estava
como antes.
O mundo era todo línguas de fogo
dizendo palavras ardentes
como as que tatuei no corpo – “Lucas, seu puto,
eu te amo.”

epifania

me disse que o amor é
pura alegria e dor nenhuma

uma palpitação animou meu peito
e fui tomado pela aparição 
de coisa quebradiça e translúcida
como um cristal fino na cristaleira
ou como uma bicicleta alçando voo
no limite do precipício
tornando-se leve, desmanchando-se feito
fumaça entre as nuvens
quanto mais
distante
se via

A densidade necessária

Foram precisos alguns dias seguidos de densa neblina
para encharcar meus poros e fazer rebrotar os fungos
irrigando os veios da palavra
nutrindo o musgo seco de versos há muito quietos
inertes quase uma vida

Foram preciosos tais dias quando a incidência direta do sol
fora ofuscada, e tudo mergulhara em brancos superficiais e
...........................................................................[intensos cinzas

Quando se apagaram com umidade os excessos solares dos dias
apenas a poesia pôde reinar e gastar grafites em trincadas percepções
......................................................................................[comuns
em seccionadas observações vulgares

cego

o girassol é amarelo
tudo mais é mentira

cartão-postal

lá no fundo sei de um
barco à vela
de mim até onde vai
arco-íris
sobre a cabeça três
véus caem
um branco e outro preto
outro ainda
fim de tarde lilás

como estrela caindo

pisei num caco de estrela
réstia de sol vazada do telhado
dormi e acordei complexo
nada será simples durante o dia
nem que adivinhes a medida do que quero
na minha ejaculação precisa


[jornal "dezfaces", n. 6; abr.2007. bh.]

meu ofício de canteiro

sem pena do mundo, pedro
eu amo

você

e nada sobra desse amor doido
de pedra rolada em cantaria

artefatos, sentinelas, lamparinas
tão doído amor eu devoto
a você

guardo a pepita de ouro negro
guardo no peito o escapulário tecido
na véspera do primeiro verso

guardo ainda bruta aquela pedra

tudo
eu devoto a você, girassóis e terços

como antes era, será também depois
um portal rococó todo feito da mesma pedra
que dura sempre desde aquele dia

e mesmo sem vê-lo, suspiro

cantando muito

o passarinho passou por aqui
o passarinho passou por acaso
o passarinho passou de repente
o passarinho pequeno-grande
o passarinho cantando sempre
o passarinho menino-homem
o passarinho pousou na grade
parou um pouco, o passarinho
não parou de cantar, seu bico
de lata vermelha, lacre passa
alegre

um minuto do passarinho, um
minuto cantando muito e

seguiu seu voo, ave

voltou
voltou breve, mas
coleirinho, o pássaro