chuva ácida

o que alenta
o que me fere
uma fenda, esta

o que interfere
no que me abre
e atravessa, chave

de sal e sombra
o que me seca
e não esquece, sonha

só uma lágrima
dos olhos desce
foram palavras,

foram momentos
tristes
esses de agora

é tarde pacas
há tempos correm
singrando os mares, vela

nuvens seguidas
de areia cinza
e de censura, triste

a nossa época
corrói o mármore
que antes era, e se

repete

pequeno resto

para o Tom

das pedras
das conchas
das montanhas
das complexas aglomerações humanas
dos milhares de pés que se fincam
e se enfrentam
dos grandes fortes e edificações
de lama ferro e lenha seca
e mesmo entre os grãos 
de sua poeira
transformados em pesar
e sombra

do coração apodrecido

do fruto
de um só
de muitas sementes semeadas
pelos séculos

um
pequeno resto
guardará
aquilo que entre muitos 
perece
mas nele, suficientemente,
se retém

Lucas

Quando abri o livro não foi de repente
e era esta a página que abria o livro [e a primeira frase]:
“No meu primeiro livro, ó Teófilo, já tratei de tudo...”

Um clarão feriu meus olhos,
cegando-me à hora exata em que li “tudo”.

O que se seguia a “tudo” eu jamais soube.
Quando recuperei a vista, nada estava
como antes.
O mundo era todo línguas de fogo
dizendo palavras ardentes
como as que tatuei no corpo – “Lucas, seu puto,
eu te amo.”

*Poema inspirado em "História de Lucas", de Rodrigo Mogiz (2003), trabalho artístico de bordados e aplicações s/ entretela; 36 x 50 cm. [Ver aqui.]

epifania

me disse que o amor é
pura alegria e dor nenhuma

uma palpitação animou meu peito
e fui tomado pela aparição 
de coisa quebradiça e translúcida
como um cristal fino na cristaleira
ou como uma bicicleta alçando voo
no limite do precipício
tornando-se leve, desmanchando-se feito
fumaça entre as nuvens
quanto mais
distante
se via

A densidade necessária

Foram precisos alguns dias seguidos de densa neblina
para encharcar meus poros e fazer rebrotar os fungos
irrigando os veios da palavra
nutrindo o musgo seco de versos há muito quietos
inertes quase uma vida

Foram preciosos tais dias quando a incidência direta do sol
fora ofuscada, e tudo mergulhara em brancos superficiais e
...........................................................................[intensos cinzas

Quando se apagaram com umidade os excessos solares dos dias
apenas a poesia pôde reinar e gastar grafites em trincadas percepções
......................................................................................[comuns
em seccionadas observações vulgares

cego

o girassol é amarelo
tudo mais é mentira

cartão-postal

lá no fundo sei de um
barco à vela
de mim até onde vai
arco-íris
sobre a cabeça três
véus caem
um branco e outro preto
outro ainda
fim de tarde lilás

como estrela caindo

pisei num caco de estrela
réstia de sol vazada do telhado
dormi e acordei complexo
nada será simples durante o dia
nem que adivinhes a medida do que quero
na minha ejaculação precisa


[jornal "dezfaces", n. 6; abr.2007. bh.]