Acredita

a água que pinga
da torneira goteja 
em meus ouvidos

essa água entra
na minha cabeça 
e sai
em forma de fumaça

simples

as águas seguindo seu fluxo, claras
o girassol sendo demais amarelo
brilha

tudo mais é memória
e falta

pinheiro do sul

eu abraço 
o tronco áspero
da araucária

sinto 
na pele 
tez 
sua dura casca 
sua dezena de braços

sua lenta seiva 
alimenta, oculta
o desabrochar das pinhas

sua morta folhagem
grosseira e delicada
sua copa contrária de pinheiro

descreve um candelabro
lançando garras na lua
que se tatua
a silhueta árvore

galhada de veado-
campeiro
verdejando meus versos

silenciosa imagem
figura só 
maturidade
na paraná paisagem

finalíssimo

para que o apocalipse aconteça
não é preciso muito
basta uma verdade

para o fim dos tempos
basta uma breve e súbita
exposição da verdade em versos curtos,
bem curtos
sem rima
e encanto

para que o derradeiro dia se realize
findando tudo
basta a poesia
acenar com pequenos gestos
aparentemente calmos, assim
espontânea
a posse de uma verdade num lenço branco

como um adeus, sem o menor cálculo
graciosa, porém, e exata
a verdade trará, enfim,
o fim certeiro
no alvo, no olho único
encerrando nas pálpebras do tempo, para sempre,
o meio
e o começo
o princípio, e o enquanto

lavra

eu queria um poema
que varresse um terço das estrelas 
lançando-as à terra

nada é simples quando
as palavras se encontram cobertas
de lama espessa
nada

não tenho voz de profeta
nem habilidades de mágico
poeta de pequena gleba
vive meio dia de inferno
diariamente

sei apenas que não se deve 
cavar minas profundas
se a poesia não brilha 
no aluvião das águas

a poesia não será extraída
sob as montanhas de pedra

se ela não se revela,
espera-se

mais tarde 
um bom torrão condenado a ser poeira
luzirá entre os dedos de poeta
palavras feitas por si mesmas
como pepitas na bateia